sexta-feira, 25 de março de 2011

Os ETs Estão Chegando Outra Vez

As grandes batalhas entre humanos e extraterrestres sempre ocorrem nos Estados Unidos. Após vencerem a Segunda Guerra Mundial, eles acreditam que são os únicos com capacidade para eliminar qualquer inimigo, seja ele soviético, comunista, islâmico, terrorista de qualquer espécie, robôs ou aliens vindos dos confins do universos para aniquilar os terráqueos. Com essa premissa, já conhecida e batida, o novo Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles aproveita o pequeno orçamento (míseros US$ 70 milhões) para cair direto na ação e não explicar muita coisa, não aprofundar nos personagens e ainda assim, ser longo o suficiente para causar desconforto nos espectadores.

Sinopse rápida: ETs atacam a Terra para colonizar o planeta em busca, supostamente, de água. As grandes cidades do mundo sucumbiram e a última resistência humana é em Los Angeles. Um militar que fracassou no último trabalho é convocado para auxiliar um jovem tenente na luta contra os invasores do espaço. O sargento Michael Nantz tenta passar por cima da derrota anterior para apoiar da melhor maneira possível os jovens do grupo (Aaron Eckhart vai ao limite para dar credibilidade ao seu papel de velho mau visto pelos novatos). Além de salvar a humanidade, têm que lutar para salvar as próprias contra um inimigo que é uma máquina de caçar e destruir sem piedade.

Em uma Los Angeles totalmente destruída e lutando contra seres mais avançados tecnologicamente, o exército, marinha e aeronáutica dos Estados Unidos unem forças para vencer a batalha. Os efeitos tem um bom acabamento, a fotografia com predomínio de tons cinzas, bege e marrom. Os diálogos são rasos, tanto quanto os personagens e frases de efeito são proferidas a todo instante. Michelle Rodriguez novamente brilha fazendo aquilo que ela sabe de melhor: atirar, matar e chutar a bunda de vilões, no caso, os ETs. Batalha de Los Angeles apresenta um tipo alien diferente: híbrido entre máquina e ser vivo, que se utiliza da água para sobreviver (aquele elemento natural que temos em abundância, tornando os invasores mais fortes).

Muitos tiros, explosões, gritos e motores de naves aliens mostram um capricho na edição e mixagem de som da película. Em alguns momentos beira o ensurdecedor! Mas, não há batalha, correria e tentativa de passar um pingo de emoção que sustente as quase duas horas de projeção. Ao final, temos um filme divertido e arrastado que, se durasse uns 20 minutos a menos seria um dos grandes pipocas do ano. Batalha de Los Angeles promete, entretanto não cumpre e, não chega ao nível de clássicos do gênero como Independence Day, Distrito 9 e Sinais, apesar das boas intenções.




sábado, 19 de março de 2011

Faroeste Animado

Gore Verbinski fez o seu melhor filme. Rango é um faroeste animal, encantador e onírico. A história do jovem camaleão de estimação que se perde na mudança é cheia de surrealismo, homenagens a clássicos do western, uma qualidade visual impecável, uma trilha que emula Ennio Morricone a cada nota e Johnny Depp com a melhor atuação dele nos últimos anos. Aliás, a dupla já havia feito sucesso juntos na trilogia Piratas do Caribe e aqui, Verbinski mostra como emocionar e fazer rir, com um pouco de adrenalina, saudosismo e ousadia para uma animação.

O camaleão de estimação cai do caminhão de mudança e se perde no meio do deserto. Sozinho num lugar inóspito tenta conseguir ajuda e encontra uma cidade do Velho Oeste, habitada por animais encrenqueiros e desolada pela falta d'água. Entra num saloon e conta mil e uma histórias, o estranho encarna o personagem e a fama corre pela cidade, que ele seja um assassino de bandidos, o perigoso Rango. É nomeado xerife da cidade pelo prefeito e tem a companhia da donzela Feijão, que sofre com a seca na fazenda que herdou do pai. Juntos decidem descobrir porque a água sumiu e enfrentam diversos inimigos, como uma família de toupeiras e uma cascavel violenta. E temos as corujas-mariachis que narram e cantam o filme todo e são um show à parte.

Verbinski brinca de citar e homenagear clássicos do faroeste. Ainda assim, encontra espaço para momentos psicodélicos como as cenas do sonho de Rango e quando ele encontra o "Espírito do Oeste" no meio do deserto. Com uma história nada infantil, tem mocinhos, mocinhas, vilões e passa cenas com certo apelo de violência, afinal, nada é fácil na vida no velho oeste. E ainda, tem tempo para tocar em assuntos de responsabilidade social e política: o consumo racional da água e a disputa de poder a partir do domínio deste recurso natural. Rango é a cara de Johnny Depp, um camaleão que inventa personagens e se camufla em cada um para fazer sucesso por onde passa.

Uma grande animação, com cenas belíssimas (incluindo a cópia de uma cena de Depp em Piratas do Caribe ou a perseguição no meio do deserto), uma trilha que leva o espectador no ritmo do filme inspirada em Ennio Morricone, um roteiro divertido e bem elaborado. Caso as animações e os westerns de 2011 mantiverem o nível de Rango, será um ano excepcional, afinal o filme cumpre muito bem o papel nos dois gêneros. 




quinta-feira, 10 de março de 2011

O Rei Venceu

Assim como no Oscar 2011, o vencedor do Carnaval 2011 no Rio de Janeiro foi o rei. Roberto Carlos, cantor e compositor brasileiro mais reconhecido no mundo foi tema da Beija-Flor de Nilópolis e levou a escola azul e branca ao 12º título. Mas, a vitória é da comunidade nilopolitana, que levou com samba no pé e na ponta da língua sem perder a força em 1h17min de desfile pela Sapucaí. Em segundo lugar ficou a Unidos da Tijuca e em terceiro a Estação Primeira de Mangueira. Com uma significativa vantagem de 1,4 pontos, muita gente criticou o resultado. Eram cinco jurados para cada quesito e, a menor e a maior nota eram descartadas, para haver uma regularidade entre as notas.

O primeiro quesito apurado foi a Harmonia, que leva em consideração elementos como o entrosamento entre canto e ritmo de componentes e intérprete, além do canto do samba-enredo pela totalidade da escola. Apenas Beija-Flor e Mangueira levaram nota máxima, as duas agremiações apresentaram letras simples, ritmo cadenciado que facilitava o canto de seus componentes e, por serem escolas com uma comunidade forte, o chão da escola se sobrepôs. Salgueiro e Vila Isabel perderam um décimo. Surpresa foi a Porto da Pedra perder 0,8 pontos nesse quesito.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira foi o segundo quesito avaliado. Apenas a Mangueira obteve os 30 pontos. A Beija-Flor perdeu 1 décimo, nota criticada por alguns, mas os jurados foram benevolentes com o fato da pista estar com óleo devido um vazamento no carro da Porto da Pedra. A avaliação aqui remete ao bailado entre o casal, a fantasia em relação ao tema e aos movimentos. O mestre-sala deve cortejar a dama e proteger o pavilhão, enquanto a porta-bandeira deve apresentar e conduzir a bandeira. Deve-se penalizar queda e/ou perda, mesmo que acidental, de parte da indumentária, como chapéu, sapato, esplendor.

No quesito Conjunto são avaliados a uniformidade da apresentação da escola em todas as suas formas de expressão (musical, dramática e visual) e a integração da escola, o "todo" do desfile. Beija-Flor que se apresentou compacta, leve e animada não perdeu pontos. A Mocidade Independente de Padre Miguel obteve a segunda melhor nota do quesito com 29,8. Talvez o excesso de alas coreografadas tenha prejudicado a Tijuca, que vem teatralizando o seu carnaval, deixando o samba no pé de lado.

A Evolução é a progressão da dança de acordo com ritmo do samba e cadência da Bateria. A coesão do desfile está em jogo: correria e retrocessos, embolação de alas e buracos na avenida são penalizados. A espontaneidade, criatividade, empolgação e vibração dos componentes são avaliados. Com os descartes, a Beija-Flor levou nota máxima. Vila Isabel, Mangueira e Mocidade saíram com 29,9. A correria de algumas escolas levaram a queda nas notas. Salgueiro mesmo com o atraso de 10 minutos perdeu apenas 0,8 décimos.

A Comissão de Frente tem como função saudar o público e apresentar a escola. Tijuca, Salgueiro e Beija-Flor com notas máximas. A Mangueira, vencedora do Estandarte de Ouro nesta categoria perdeu um décimo, assim como a Imperatriz Leopoldinense. A escola nilopolitana inovou ao unir Comissão de Frente e Mestre-Sala e Porta-Bandeira, num gesto de apresentar não somente a escola, mas também o pavilhão, seu símbolo maior.

As Fantasias de comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira e dos integrantes dos carros alegóricos não são levadas em consideração. As demais fantasias são julgadas aqui, respeitando a concepção e adequação ao Enredo, a criatividade mantendo o significado dentro do tema, o acabamento, a uniformidade dos detalhes. A Beija-Flor deixou o luxo e grandiosidade de fora e trouxe fantasias menores e mais leves, para que seus componentes pudessem sambar mais à vontade, o que influenciaria em outros quesitos como conjunto e evolução. Assim, a escola de Nilópolis, bem como a Tijuca e o Salgueiro levaram 10. A Mangueira com 29,6 foi uma grande surpresa, pois a escola desfilou elegantemente para contar a história de Nelson Cavaquinho.

Alegorias e Adereços foi crucial na apuração, onde a Mangueira perdeu 1,6 pontos, levando a menor nota do quesito. As alegorias são os elementos cenográficos sobre rodas (carros e tripés) e Adereços são os itens que não estão sobre rodas. Beija-Flor e Tijuca garantiram a nota máxima. A azul e branco de Nilópolis fez carros grandes, mas leves que deslizaram com exuberância pela Sapucaí. A azul e amarelo do Borel trouxe carros gigantescos e pesados, o abre-alas deu problema para sair da avenida e precisou ser desmontado no início da dispersão. O Salgueiro que apresentou problemas em três carros teve apenas 0,5 ponto de punição, enquanto Mocidade, Imperatriz, Porto da Pedra e Mangueira tiveram perdas severas.

O Enredo é a criação e apresentação artística do tema. Julga-se coesão e coerência do tema, a apresentação sequencial (o roteiro fornecido no Livro Abre-Alas) e a capacidade de compreensão do enredo a partir da associação entre argumento e desenvolvimento na avenida. As homenagens bem elaboradas e contadas por Mangueira e Beija-Flor conquistaram 30 pontos. A confusão estabelecida pelos delírios de Paulo Barros e seu "Esta noite levarei sua alma" que misturou diversos tipos de filmes, não somente terror e suspense como ficava aparente pela sinopse, fez a Tijuca perder significativos 4 décimos.

A Bateria, o coração da escola, onde o ritmo de cada sambista é moldado pela regência dos seus mestres. Deve-se considerar a manutenção regular e sustentação da cadência da Bateria em consonância com o Samba-Enredo, a perfeita harmonia entre os sons de todos os instrumentos e a criatividade e versatilidade. Os jurados não gostaram da "paradinha" de quase meio minuto da Mangueira e levou um 9,0 que foi descartado e escola verde e rosa perdeu 2 décimos. Novamente, apenas Tijuca e Beija-Flor garantiram 30 pontos. A surpresa foi a Mocidade perdendo 0,8.

O último quesito apurado na Apoteose foi Samba-Enredo. O jurado avalia letra e melodia, respeitando a licença poética. Metade da nota vai para Letra, sendo ela descritiva ou interpretativa, quando ela conta o Enredo sem se ater em detalhes. A avaliação de Letra vai para adequação ao enredo, riqueza poética, beleza e bom gosto e sua adaptação a melodia. A outra metade vai para Melodia, considerando as características rítmicas do samba, a riqueza melódica e o bom gosto de seus desenhos musicais e a capacidade de sua harmonia musical facilitar o canto e a dança dos componentes. A Mangueira foi a única nota máxima, os sambistas da verde e rosa e a torcida empurraram com garra e amor, o samba em homenagem ao "Filho Fiel". Beija-Flor e Salgueiro perderam apenas um décimo, apesar do chão das duas escolas entrarem forte na avenida, conquistando a Sapucaí.

Ilha, Grande Rio e Portela não foram julgadas devido o incêndio na Cidade do Samba que destruiu seus barracos, mas a Portela foi punida em R$ 100 mil, por ter estourado o tempo do desfile. No geral, a volta do Salgueiro para o desfile das campeãs foi inesperado, pois teve problemas com 3 carros, terminou o desfile com 10 minutos de atraso e não perdeu muitos pontos em alegorias e adereços, nem em conjunto e até a nota de evolução não foi tão baixa. Tijuca com o "teatro sambado" foi vice, não sustentando a coroa de 2010, mesmo com a comissão de frente perdendo a cabeça. A Mangueira com um belo desfile, mas com problemas na organização conseguiu um honroso 3º lugar. A Vila Isabel com Rosa Magalhães fez um desfile bonito, mas o tema "cabelo" atrapalhou e terminou em 4º. Fechando o desfile das campeãs, a Imperatriz com a história da medicina. A Beija-Flor que mudou o estilo, fazendo jus ao título do samba "A Simplicidade de um Rei", veio leve, divertida e com uma comunidade comprometida fazendo empolgar os jurados e a presença de Roberto Carlos emocionando o público. Um título justo, para um ano onde nenhuma escola mostrou todo seu potencial e problemas como incêndio, chuva e óleo marcaram o carnaval carioca.




segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Oscar 2011

Uma noite de gala, revivendo momentos marcantes da história. O Oscar 2011 estava com cara que ia se retratar de erros históricos e entrar com pé direito e de cabeça na nova década do século XXI. Entretanto, ao anunciar o melhor filme, Steven Spielberg lembrou grandes filmes vencedores e filmes ainda maiores que foram derrotados que, nesta noite vencedor e perdedores estariam bem acompanhados. Ao lembrar de um certo derrotado, já sentíamos que O Discurso do Rei seria o ganhador, pois A Rede Social que poderia tirar o prêmio, consagrou-se como o Cidadão Kane do nosso tempo.

A Disney fez a festa levando 4 prêmios, dois por Toy Story 3 - melhor animação e melhor canção com "We Belong Together" e, dois por Alice no País das Maravilhas - melhor figurino e melhor direção de arte. A Pixar mantém o reinado nos últimos 4 anos. Com A Origem levando 4 estatuetas (Efeitos Visuais, Fotografia, Mixagem de Som e Edição de Som), sendo o maior vencedor em quantidade da noite ao lado de O Discurso do Rei, outro filme da Warner manteve o tabu e saiu de mãos vazias: Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1, a saga bilionária do menino bruxo que concorria em Direção de Arte e Efeitos Visuais.

O Vencedor brigou e venceu nas categorias de ator e atriz coadjuvantes: Christian Bale e Melissa Leo, ela que recebeu a estatueta de Kirk Douglas, viu o prêmio ser incerto após problemas de autopromoção e campanha a favor da nova Hailee Steinfeld, de Bravura Indômita. Aliás, a refilmagem do western pelos irmãos Coen entrou na briga com 10 indicações e não levou nada, uma decepção, visto que merecia levar em Fotografia, que era simplesmente deslumbrante. E Cisne Negro viu sua bailarina Natalie Portman brilhar e emocionar o público com o Oscar de melhor atriz.

A Dinamarca levou melhor filme estrangeiro com o drama Em Um Mundo Melhor. Enquanto, o Brasil que era cenário do concorrente a documentário Lixo Extraordinário, viu o careca dourado para na mão de Trabalho Interno, sobre a crise econômica dos últimos anos. Entre os curtas-metragem os vencedores foram: o documentário Strangers No More, a animação The Lost Thing e o melhor curta-metragem God of Love. E o terrível filme O Lobisomem ganhou como melhor maquiagem, talvez a única coisa que realmente presta na película.

Os apresentadores Anne Hathaway e James Franco se esforçaram, ela se saiu bem melhor que o colega, que também estava indicado ao prêmio de melhor ator por 127 Horas. O palco com um cenário mais clean deixou a festa com mais interação entre cenário e atores. Os números musicais foram bonitos, apesar que no In Memorian poderiam ter colocado outra cantora no lugar de Celine Dion. Mas, foi uma festa democrática e rápida. Até Josh Brolin e Javier Bardem deram selinho no palco.

Na briga principal estavam A Rede Social e O Discurso do Rei. O filme sobre o rei inglês George VI abriu a festa perdendo prêmios, de 12 indicações levou apenas 4, mas quando levou o Oscar de melhor diretor para Tom Hooper, após ter ganho melhor roteiro original, colocava uma mão na categoria principal. E antes disso, garantiu o esperado melhor ator para Colin Firth. A história do Facebook levou um duro golpe com a derrota do diretor David Fincher, mas chegava confiante para o último envelope, afinal, já havia garantido melhor trilha sonora, roteiro adaptado e montagem, os dois últimos considerados importantes para levar ao filme do ano. Entretanto, quando Spielberg anunciou O Discurso do Rei melhor filme de 2010, percebemos que a Academia de Cinema dos Estados Unidos ainda é uma terra de velhotes, que não gostam de ousar e escolheram o politicamente e plasticamente correto filme de Hooper em detrimento ao ousado, criativo e genial A Rede Social, que nada mais é do que um reflexo da atualidade, dos relacionamentos humanos e do poder da internet.



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Os Indomáveis

Refilmar um clássico é como mexer com um vespeiro, o risco de ser atacado sem piedade é alto. Quando os irmãos Coen anunciaram que rodariam sua versão para Bravura Indômita, sabiam dos problemas que poderiam enfrentar. Ethan e Joel vencedores do Oscar por Onde os Fracos Não Têm Vez, possuem um currículo diversificado, mas conseguir manter a aura e dignidade do material original deste clássico do western era um desafio que eles decidiram encarar, sem medo de ser feliz com coragem e determinação.

Para quem não conhece ou não viu ou viu e não sabe de outros detalhes, o Bravura Indômita original de 1969, dirigido por Henry Hathaway teve duas indicações ao Oscar, vencendo na categoria de melhor ator com John Wayne. Além do astro, outros nomes de peso faziam parte do filme: Robert Duvall, Dennis Hopper, Glen Campbell e a jovem Kim Darby, no papel de Mattie Ross. Wayne também venceu o Globo de Ouro pelo filme.

Voltando a atualidade. Para manter o nível do elenco para a refilmagem, os Coen escalaram um trio de peso para os papéis masculinos principais: Jeff Bridges, Matt Damon e Josh Brolin. Entretanto, apesar da indicação ao Oscar de  melhor ator para Jeff Bridges (vencedor ano passado por Coração Louco), que revive o papel de John Wayne, é a novata Hailee Steinfeld, de apenas 14 anos, quem rouba a cena como Mattie Ross, uma menina que vai em busca do assassino do pai.

A história adaptada do livro de Charles Portis (assim como o filme de 1969) mostra a pequena Mattie como uma garota determinada e corajosa, que entra no mundo dos adultos para negociar a captura do homem que matou seu pai. E ela embarca na viagem ao lado de um velho xerife para procurar o matador, que está com outros bandidos em território indígena. Haille entendeu a situação, deu o recado e em tela não se mostra intimidada ao encarar grandes nomes do cinema atual, garantindo a vaga no Oscar de melhor atriz coadjuvante. E Bridges com sua competência e carisma costumeiro dá vida a Rooster Cogburn, um federal em fim de carreira, maltrapilho e alcoólatra. Entre os papéis secundários, destaque para o texano personagem de Matt  Damon. La Beouf está na cola do bandido e não vai perder a chance de conseguir a recompensa por Tom Chaney (Josh Brolin).

O couro e tons negros tomam conta do figurino do Oeste americano, enquanto a paisagem oscila entre o escuro das noites de inverno iluminados por fogueiras com o marrom e laranja do sol ao meio-dia comendo poeira. Estamos de volta aos tempos do faroeste e, os Coen não deixam que um quadro sequer da película não transmita esse sentimento. Da trilha sonora encantadora, aos cenários perfeitos e excelente utilização de descampados para emboscadas a cavalo, tudo é um convite para entrar na alma do filme e se levar pela motivação principal: capturar o assassino do pai de Mattie.

Enfim, uma obra acima de qualquer suspeita, que não deve em nada ao original e, ainda ajuda a revelar para o século XXI, o fantástico mundo dos westerns. Resultado: mais de US$ 165 milhões por enquanto (o filme custou US$ 38 milhões) somente nos EUA e 10 indicações ao Oscar: melhor filme, melhor diretor, melhor ator para Bridges, melhor atriz coadjuvante para Steinfeld, melhor roteiro adaptado, melhor edição de som, melhor mixagem de som, melhor figurino, melhor direção de arte e melhor fotografia. Um filme sobre como as situações nos fazem crescer e mostrar isso ao outros, encarando o que vier pela frente. Espetacular!



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Galinha Preta

O título engraçadinho surgiu numa piada de amigos no orkut. Entretanto, se pararmos para analisar, só pode ter sido uma macumba de galinha preta que fez Nina perder o juízo em Cisne Negro. Darren Aronofski entrega sua visão para O Lago dos Cisnes com extrema elegância e apuro visual. Além disso, com a reconhecida câmera em punho e uma montagem visceral, o diretor entrega uma trama claustrofóbica, esquizofrênica e dilacerante. Sim, Cisne Negro é um filme que chega para perturbar e emocionar.

Natalie Portman é uma das mais belas e melhores atrizes da atualidade, já emprestou seu talento a blockbusters como Star Wars (como a Rainha Amidala, no lixo digital da nova trilogia) e até adaptações de HQs como V de Vingança (o componente mais humano da aventura do herói mascarado). Agora, ela supera limites do corpo e da mente para encarnar uma bailarina obcecada pela perfeição dos movimentos, que sonha em ser o principal nome da companhia e, assim, alimentar os sonhos da frustrada mãe super protetora. 

Com ares de um terror noir e explorando toda sensualidade das atrizes em collant, Aronofski excita ao máximo os atores e arranca de cada um seus desejos mais profundos. Sim, é um filme sobre desejos: a mãe que deseja ver a filha brilhando como ela nunca pôde, a jovem bailarina que sonha em ser a número um, o diretor que almeja ter a glória em uma nova peça, a velha estrela que busca se manter no topo mesmo com o peso da idade, a novata da companhia que simplesmente deseja viver sem medo. Mas, o filme é acima de tudo sobre Nina e em quase duas horas de projeção temos uma overdose de Natalie Portman e isso não incomoda, é quem dá força à película.

Quando Thomas Leroy (Vincent Cassel mais francês e sedutor que nunca) anuncia a saída de Beth, a dançarina principal, ele revela também que pretende fazer uma remontagem de O Lago dos Cisnes para a abertura da nova temporada. As bailarinas ficam em polvorosa. Nina mantém sua frieza e dedicação. Porém, ela sofre ao ouvi-lo dizer que ela é apenas o Cisne Branco, que ela não tem atitude suficiente para ser também o Cisne Negro e, assim, não conseguiria ser a protagonista. Além de pedir para ela analisar os movimentos leves e marcantes de Lily (Mila Kunis, linda, sexy e descolada), uma novata que chama a atenção pela beleza e sensualidade.

Com toda a pressão para conseguir a chance de ouro e ser a nova estrela da companhia, Nina embarca numa jornada contra si mesma. Primeiro, deve perder o pudor, a vergonha e quebrar a redoma na qual foi colocada pela mãe e encerrar uma vida sob o protecionismo. Depois, encarar as investidas do diretor, conhecido garanhão entre os bastidores. Enfrentar a inveja da ex-rainha do balé, que não aceita a aposentadoria, que considera precoce. Disputar a vaga com as colegas de companhia, incluindo a sedutora Lily, recém-chegada ao grupo e totalmente encantadora. Com tudo isso, ela passar a ser sua maior ameaça, pois a integridade está desmoronando, a mente lhe prega peças e a realidade é um mero detalhe.

Entre danças, piruetas, drogas, sexo lésbico e uma masturbação excitante de Portman, ela vai se transformando no cisne negro, literalmente - há momentos de puro surrealismo e excentricidade nas imagens de Aronofski com as mutilações no corpo de Nina. Um delírio visual e estético, comandado por mãos habilidosas do diretor, com atuações inspiradas e chocantes, Cisne Negro é um dos melhores filmes de 2010 e mostra as qualidades que fazem a obra marcar presença em diversas premiações. O Oscar para Natalie de melhor atriz é praticamente uma certeza e totalmente justo, o trabalho dela é exuberante como um cisne e terrível como o lado negro da força. Basta saber até onde a loucura é capaz de nos levar.



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Viagem de Estrelas

Linda, olhos verdes, corpo escultural, boca carnuda, um Oscar no currículo, seis filhos, casada com um dos homens mais lindos de Hollywood, embaixadora da ONU e eleita a mulher mais sexy do mundo várias vezes. Charmoso, malandro, uma face de camaleão, algumas indicações ao Oscar, personagens emblemáticos, cara de família, parceiro de Tim Burton e eleito o homem mais sexy do mundo algumas vezes. Descritos assim, fica fácil saber que falo de Angelina Jolie e Johnny Depp, dois dos maiores astros do cinema atual, com milhões de fãs mundo afora. Então, o que esperar de um filme de ação e comédia com Jolie e Depp fazendo par romântico com cenas em Paris e Veneza? O Turista tem todos esses elementos! Nas mãos de um diretor experiente no assunto, seria um filmaço! Nas mãos do alemão Florian Henckel von Donnersmarck (que dirigiu em longa somente o oscarizado A Vida dos Outros), é um filme qualquer.

Elise é uma bela mulher que está sendo vigiada pelo Serviço Secreto Britânico, suspeita de envolvimento com um bandido chamado Alexander Pearce, que deu um golpe num banqueiro. O amante dá as coordenadas para que a bela mulher embarque num trem de Paris para Veneza e escolha um homem qualquer para que possam acreditar que seja ele, visto que quase ninguém conhece seu rosto. Eis, que ela encontra na viagem o tímido e reservado americano professor de matemática Frank Tupelo, que está na Europa para esquecer uma desilusão amorosa. Claro, ninguém em sã consciência recusaria um convite de jantar vindo de uma deliciosa femme fatale tão envolvente.

No rastro do casal estão uma trupe de inspetores britânicos, com todo seu charme habitual e classe até mesmo nas investidas mais pesadas contra os bandidos. Destaque para Paul Bettany como o inspetor John Acheson e um incontrolável ciúme pela bela procurada. A ação - ou o que podemos considerar como ação - principal acontece em Veneza com perseguições de barcos pelos canais da cidade italiana e até mesmo pelos telhados dos prédios históricos. Depp se vê envolvido numa trama de traição e sedução e nem sequer sabe porque está sendo perseguido pela polícia e por capangas do banqueiro que fora roubado pelo misterioso Alexander Pearce, totalmente deslocado num mundo que não é dele e rende alguns momentos cômicos.

A cenografia aproveita-se das belas paisagens europeias na viagem de trem e do clima romântico de Veneza. O figurino, principalmente, de Jolie é puro glamour e sensualidade realçando o belo corpo da atriz, os britânicos sóbrios e elegantes. Depp arrumadinho é algo raro e ainda assim, fica garboso e hilário. A trilha sonora cumpre bem seu papel. Entretanto, o roteiro cheio de reviravoltas e tentativas cômicas acaba derrapando feio durante a projeção, entregando momentos desnecessários e comprometendo o desenvolvimento da história. E a direção de Florian Henckel von Donnersmarck é preguiçosa (que também é um dos roteiristas do filme), parece que não é a praia dele esse negócio de ação, comédia e estrelas de Hollywood. Falha em todas as tentativas de melhorar o andamento do filme.

A experiência não é de toda ruim. Há alguns momentos engraçados e algumas reviravoltas bem interessantes.  Angelina Jolie em mais um papel de espiã, segura as pontas com beleza e naturalidade. Johnny Depp parece estranhar a situação, fica perdido em umas cenas, parece atuando no automático. Para o público comum é um passatempo ligeiro e divertido. Mas, esperamos um novo encontro entre os dois maiores astros do cinema atual e que seja melhor, quem sabe nas mãos de um diretor mais gabaritado. E ainda assim, O Turista obteve três indicações ao Globo de Ouro 2011 (melhor filme comédia/musical, melhor ator comédia/musical para Johnny e melhor atriz comédia/musical para Angelina) para percebermos como a safra cômica de 2010 foi fraca.