quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Curitiba 360 Graus




O cinema brasileiro ao longo dos anos tem mostrado a cara do país, mas de uma forma bem homogênea: as produções situam-se no eixo Rio-São Paulo e Nordeste. O Rio Grande do Sul é uma pátria à parte que nos presenteia com filmes realizados pela Casa de Cinema de Porto Alegre, uma das mais importantes no cenário nacional. E o restante dos estados possuem obras que vão a festivais, mas raramente chegam às telas do circuito comercial. O Paraná colocou dois filmes na tela grande em 2012: Curitiba Zero Grau e Circular, que tem direção conjunta de cinco profissionais, incluindo Aly Muritiba (diretor do curta A Fábrica, que está entre os semifinalistas da categoria no Oscar 2013). 

O cineasta Eloi Pires Ferreira (diretor de O Sal da Terra), que traça um perfil do cotidiano dos curitibanos através de quatro histórias que se entrelaçam em Curitiba Zero Grau. O roteiro remete ao internacional 360 de Fernando Meirelles que também está em exibição, porém foca apenas na capital paranaense, numa fria semana de inverno. As quatros histórias são contadas separadamente e a narração é feita pelo personagem da história seguinte, fechando o ciclo e mostrando como cada evento na vida de uma pessoa pode interferir a terceiros que nunca viu.

Jaime (Edson Rocha), um empresário, sócio de uma revendedora de carros que está envolvido num problema: afundou a empresa em dívida após negociar carros importados no mercado negro e tem uma relação conflituosa em família. Márcio (Diegho Kozievitch), um motoboy que luta para cuidar da filha com sua namorada Daiane (Uyara Torrente, vocalista da Banda Mais Bonita da Cidade) e tentar reatar o relacionamento, que é dificultado pela sogra que o odeia e, durante uma briga de trânsito é alvo de um tiro que acerta um pedestre que acaba falecendo na calçada. Tião (Lori Santos) é um cara do interior que foi para a capital ganhar a vida, mas acaba vivendo com a família numa favela, sobrevive catando papel pela cidade e precisa de dinheiro para comprar remédio pro filho doente. Ramos (Jackson Antunes) é motorista da empresa de transporte coletivo de Curitiba, já calejado do trabalho tem um coração enorme e acaba acolhendo uma família catarinense em sua casa, um povo humilde que vai à cidade paranaense encontrar um familiar distante e tentar uma nova vida.

Os caminhos dos quatro vão se aproximando até se encontrarem numa noite fria de Curitiba e a vida de cada um tomar novos rumos. É interessante mostrar um lado humano, gentil e cortês do curitibano, diferente dos rótulos de povo frio e antipático, que muitos teimam em dizer. Os famosos pontos turísticos como a Ópera de Arame e o Jardim Botânico não são destacados. Vemos a Curitiba dos bairros afastados e seus apartamentos de conjuntos populares, das ruas centrais movimentadas, as linhas dos biarticulados, do cemitério Jardim da Saudade (onde meu avô materno está enterrado e por isso a cena no local foi marcante pra mim).

Apesar de alguns problemas de edição - visível na abertura onde alguns planos são repetidos, dando impressão que faltaram tomadas a serem realizadas para construção da cena - e a fotografia apresentar falhas no foco na mesma sequência. Depois o filme engrena, apresenta cenas belíssimas e emocionantes, com atuações naturais e com o "curitibanês" na ponta da língua. Uma grata surpresa que vi no ano de 2012 e que poderia ter melhor sorte e ser apresentado em circuito comercial pelo país com maior amplitude.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Top 10 de 2012

O ano de 2012 vai se encerrando com uma recuperação da indústria cinematográfica, mesmo diante da crise mundial. O povo tem buscado o cinema como fonte de alegria, entretenimento e distração nesses momentos difíceis. E já que o mundo não acabou, que 2013 tenhamos mais filmes interessantes para prestigiarmos nos cinemas. Enquanto isso, deixo meu Top 10 dos filmes que vi em 2012:
1- Argo: Hollywood sempre fez fama ao inventar histórias de ficção que falavam sobre agentes secretos salvando o mundo. Entretanto, Ben Affleck dirige e protagoniza um filme sobre Hollywood sendo a responsável por um capítulo importante da história americana que só foi divulgada anos depois do acontecido. Em 1979, durante a crise no Irã a Embaixada dos EUA em Terrã é invadida, alguns funcionários são feitos reféns e outros seis conseguem se refugiar na Embaixada do Canadá. Então, o melhor plano para extrair os refugiados do Irã é: inventar que fazem parte de uma equipe de filmagem, que estão procurando locações no Oriente Médio e para isso a CIA tem ajuda de um estúdio, com festa de lançamento da produção sendo reproduzida pela mídia e tudo mais.
2- 007: Operação Skyfall: James Bond desde Casino Royale era um novato em campo, estouradinho e deselegante. Mas mesmo assim, fantástico. Em Skyfall, Daniel Craig atinge a maturidade na pele do espião, com um roteiro inteligente e empolgante, e podemos dizer que este é o Bond que conhecemos. Com um vilão sarcástico e maníaco interpretado com sutileza por Javier Bardem, o filme é um dos melhores da saga e entrega as melhores atuações. Judi Dench é uma diva em seu auge e Ralph Fiennes entra na história com muito estilo. Fechando o pacote: a bela música-tema na voz de Adele.
3- A Invenção de Hugo Cabret: Martin Scorsese faz uma fábula que homenageia o cinema fantástico criado por Méliès no início do século XX a partir do olhar de um garoto órfão que mora numa estação de trem em Paris. A união de uma história fantástica com a melhor tecnologia em efeitos, temos o 3D mais natural desde Avatar e com o upgrade de termos em cena atores de carne e osso. Embalada por uma trilha emocionante e os jovens Asa Butterfield e Chlöe Grace Moretz com uma simpatia contagiante, o filme ganha brilho ao ter Ben Kingsley como o cineasta Georges Méliès, um ícone do cinema mudo.
4- O Hobbit: Uma Jornada Inesperada: Como é bom voltar à casa. A Terra Média é meu lar e Peter Jackson nos traz os personagens de Tolkien mais uma vez, agora com a adaptação de O Hobbit, que é um livro infantil e curto, numa trilogia anabolizada. Com a participação de velhos conhecidos da Trilogia do Anel, o novo filme faz o elo entre as sagas, adiciona fatos que não estão no livro e ainda sobra tempo (e isso tem bastante) para dar uma nova dimensão da Terra Média e dos acontecimentos que vão desencadear na Guerra do Anel. O melhor da jornada: Gollum está cada vez mais real. Aqui temos Bilbo jovem numa jornada com Gandalf e treze anões para reaver a fortuna dos anões na Montanha Solitária. Pena que Smaug, o dragão, só apareça de relance. Dezembro de 2013 nunca foi tão longe!
5- Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge: O final épico da trilogia de Nolan para o Homem-Morcego. Bane é um vilão destruidor, que não conhece limites de violência e, sua voz mascarada e os músculos de Tom Hardy caíram como um luva. A introdução da ladra Mulher-Gato é sensacional e Anne Hathaway ficou deslumbrante no papel. No mais, temos uma trama à altura dos antecessores, com uma ação tensa destaca pela fotografia e trilha sonora. Gotham é lugar sitiado e está sob domínio de um louco que quer explodir a cidade para cumprir uma vingança. E a reviravolta com uma certa dama é muito boa (apesar de ser esperada).
6- Ted: O sonho de toda criança solitária é que seus brinquedos ganhem vida. A partir dessa premissa, temos um ursinho de pelúcia falante, maconheiro, desordeiro, puteiro e politicamente incorreto. A comédia mais suja do ano teve sucesso merecido. Mark Whalberg é um adulto que não consegue ter uma vida normal, porque é mais irresponsável que seu ursinho maluco e a química entre os dois é perfeita, até compartilha do terrível medo de trovões. E pra completar temos uma Mila Kunis deliciosamente perfeita no papel da namorada que disputa a atenção do namorado com Ted.
7- Intocáveis: Um rico paraplégico que procura alguém para cuidá-lo não somente pelo alto salário, mas para ter uma vida mais humana e confortável, e ainda aguente suas exigências. Um negro sem perspectivas que não dá bola pra trabalho e vive do salário-desemprego e só precisa de declarações que está procurando um emprego. A união desses personagens tão díspares em situações cotidianas que transitam entre o drama e a comédia sem cair na pieguice. O filme francês é belo, simples e tem potencial para ser finalista do Oscar de Filme Estrangeiro.
8- Os Vingadores: Após a saga dos filmes-solo de Hulk, Thor, Capitão América e Homem de Ferro, temos a união desses heróis (e o adendo da fatal Viúva Negra e do certeiro Gavião Arqueiro) no filme-pipoca mais empolgante do ano. A maior bilheteria de 2012 é o resultado do sucesso da união dos heróis da Marvel contra o vilão Loki, mais psicótico do que nunca (afinal, todo vilão de HQ é maluco e quer dominar o mundo). O filme é uma sucessão de brigas e batalhas de tirar o fôlego, com destaque para a luta entre Hulk e Loki. Que venha o segundo!
9- Gonzaga: Pai e filho são mestres da música popular brasileira. Guiado através de uma entrevista feita por Gonzaguinha com Gonzagão, o filme narra a desventura familiar que uniu os astros somente nos últimos anos de vida. Do sertão pernambucano ao Rio de Janeiro e shows pelo Brasil, o filme respira música e transpira emoção a cada quadro. Breno Silveira eleva o patamar de sua direção já visto na biografia de Zezé Di Camargo e Luciano e entrega um filme ainda mais humano e realista, que talvez com mais uns 20 minutos de metragem tivesse ficado ainda mais perfeito na transposição da relação entre Luiz Gonzaga e Gonzaguinha.
10- A Origem dos Guardiões: Papai Noel, Sandman, Fada do Dente e Coelho da Páscoa são personagens que estão no imaginário das crianças. Jack Frost é apenas lembrado de vez em quando e por isso não é reconhecido pelos pequenos como um herói. Mas, quando o Breu volta a querer dominar a terra com um mundo de pesadelos, o menino-gelado Jack Frost se une aos ilustres personagens para combater o mal e fazer as crianças acreditarem na magia novamente e acabar com o medo crescente do Bicho-Papão. Um desenho encantador, colorido, que faz as crianças vibrarem e os adultos voltarem à velha infância.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Guerra por um Cavalo

Há tempos, Steven Spielberg era um cara que não tinha medo de retratar uma história com sangue e violência, mas não era nada gratuito, fazia parte da construção narrativa e apesar de tudo, havia uma beleza no sangue jorrando na tela. Porém, aquele diretor criativo e ousado sentiu o peso da idade e aos poucos, foi se tornando um velho cagão com síndrome de Peter Pan. Só isso para explicar, a melosidade de suas últimas obras, incluindo o oscarizável Cavalo de Guerra.

Inglaterra, início do século XX. Albert Narracot (Jeremy Irvine, bonitinho mas insosso), um jovem rapaz espreita pela cerca o novo potro dos vizinhos e com o tempo faz amizade com o equino. O embriagado Ted (Peter Mullan, bem à vontade) resolve desafiar Lyons (David Thewlis, conhecido da molecada pelo Lupin de Harry Potter) de quem arrendou as terras onde mora, num leilão de cavalos e compra o potro - por um preço alto, sendo que deve o arrendamento da fazenda. Albie resolve domar o cavalo, carinhosamente chamado de Joey, para arar as difíceis terras de um barranco e assim, produzir nabos para pagar a dívida de seu pai.

Numa cena piegas e clichê, onde todos moradores da região vão assistir o garoto sofrer para puxar o cavalo para arar, eis que um temporal cai e com a terra molhada ele consegue o que parecia impossível. Então, a colheita se perde por outro temporal e Ted tem que vender o cavalo para o exército inglês que está entrando na 1ª Guerra Mundial. A partir daí, com a separação de criador e criatura, já que o rapaz não tem idade de ir para a guerra, o filme é somente sobre o cavalo.

Na linha de batalha, o cavalo Joey perde seu cavaleiro, o capitão Nicholls (Tom Hiddleston, simpático) num campo francês no embate contra nazistas alemães. E assim, começa a desventura de Joey em terras francesas, passando de mão em mão, até que no fim da guerra um fato "inesperado" acontece. Mais açucarado, impossível.

A fotografia de Janusz Kaminski grita a cada momento "quero ser ...E o Vento Levou!", com cenas de contra-luz para representar um saudosismo dos épicos da Era de Ouro de Hollywood. Além de closes, a cada olhar mais emotivo - e isso inclui os olhos do cavalo. O roteiro baseado na obra de Michael Morpurgo torna o filme doce, terno e sem sangue, tudo muito limpo e encantador. Com esses truques de atingir o emocional do espectador, acompanhado de uma trilha pomposa de John Williams (indicada ao Oscar mais pelo nome do autor do que pela qualidade), que tenta transpor pelas notas uma empatia pela aventura dos personagens.

Se Spielberg de hoje fosse o cara que entregou Tubarão e Contatos Imediatos de 3º Grau, a odisseia de Joey e Albie mostraria os terrores da guerra, como ela influencia a vida das pessoas ao redor e sim, teríamos mortes com sangue, o vermelho teria mais destaque em tela e não essa fábula para crianças. Os choros que ouvi na sala de projeção também seriam acompanhados de gritos entusiastas uma batalha brutal como foi a Primeira Guerra Mundial. Ainda assim, o filme tem seis indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. É um belo filme, mas que poderia ter sido bem melhor.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Boxe Metálico

No futuro, homens não praticarão boxe, o esporte exigia violência demasiada de um público sedento por sangue. Assim, os robôs entraram nos ringues em duelos mortais. Charlie Kenton (Hugh Jackman, fazendo papel de pai-herói) é um ex-boxeador fracassado, que trabalha com robôs velhos tentando ganhar uma grana no mundo da luta entre os autômatos. Essa é a premissa inicial de Gigantes de Aço.

A ex-mulher morre e deixa como presente o filho de 11 anos, Max (o simpático garoto Dakota Goyo) que ele nunca quis conhecer. Então, os tios do menino que querem a guarda, fazem um acordo e assim, o mercenário Charlie troca o filho por dinheiro para liquidar dívidas. Porém, terá que passar o verão com ele. A partir daí, temos uma jornada da descoberta da relação pai-filho e como os anos afastados ainda assim os deixou parecidos na personalidade.

Charlie ainda tem um relacionamento tempestivo com a bela Bailey Tallet (Evangeline Lilly, bonita como sempre). E é assombrado pelo fantasma do fracasso como lutador ao perder uma grande final quando jovem. Então, num ferro velho de robôs, sob forte tempestade Max cai num penhasco é salvo por Atom, um robô sucateado, que ele adota como herói e quer levá-lo aos ringues.

A partir daí a história adaptada do romance Steel (de Richard Matheson, 1954) e produzida por Steven Spielberg vira um drama sobre como a relação pai e filho pode se aproximar diante de um interesse comum, intercalada com momentos de lutas violentas nos ringues. E ainda ganha contornos de crítica ao consumismo e ao avanço da modernidade (de forma superficial) com a trama sobre a empresa que comanda as lutas e quer acabar com os robôs ultrapassados. Com robôs realísticos, uma trilha sonora calcada no pop e rap americano, o filme diverte, mas é bem descartável. Gigantes de Aço é um filme pipoca bem feito e nada mais, que conseguiu preencher uma das vagas na categoria de Efeitos Visuais do Oscar 2012.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Top 10 de 2011

2011 se passou e após algumas sessões de cinema, uns filmes em DVD e não ter visto algumas estreias do ano, tenho uma lista dos meus 10 filmes favoritos.

1- O Espião Que Sabia Demais: A Inteligência Britânica está no meio do embate entre Estados Unidos e União Soviética, são tempos da Guerra Fria e um agente duplo está infiltrado no topo do Circo inglês para repassar informações a Moscou. Gary Oldman é o espião britânico aposentado George Smiley que é chamado por Control (John Hurt, soberbo) para descobrir quem é o traidor. Um jogo de espiões, verdades, mentiras, pistas escondidas, assassinatos, romances e o clima de tensão aumentando entre os membros do Circo. Baseado na obra de John Le Carré e contando com astros como o oscarizado Colin Firth e Tom Hardy, é um dos melhores filmes de espionagem da história do cinema. Mas, quem comanda o show é Gary Oldman numa atuação fria, calculista e emocionante, que lhe garantiu passagem para indicação ao Oscar 2012.

2- A Árvore da Vida: Vida, morte, pais, filhos, eternidade. Terrence Malick vai do início do mundo aos dias atuais e o além, para contar uma saga de amor, devoção, medo e amadurecimento. A relação entre o Sr. e a Sra. O'Brien (Brad Pitt e Jessica Chastain, respectivamente) e seus filhos, principalmente, Jack (na fase adulta interpretado por Sean Penn), o filho mais velho que questiona as atitudes do pai autoritário. No futuro, vemos como as escolhas se refletem na vida das pessoas. E como o caminho da graça e da natureza influenciam a vida e a morte. Um filme de fotografia deslumbrante, com uma trilha cativante. A montagem não linear, os momentos de contemplação e devaneios tornam a experiência ainda mais sensorial e astral.

3- O Palhaço: Elenco de primeira, produção caprichada e uma história simples, assim é o melhor filme nacional de 2011. Assim, Selton Mello desponta como um diretor promissor e mostra porque é um dos melhores atores de sua geração. No interior de Minas Gerais, uma trupe de circo viaja, cidade a cidade, em busca do público. Diante das dificuldades, o jovem palhaço Pangaré (Selton) que assumiu o circo no lugar do  pai palhaço Puro Sangue (Paulo José numa atuação magistral) começa a questionar sobre a vida na estrada sob a lona que cobre o picadeiro. Um drama realista com pinceladas de comédia, equilibrado na medida certa para emocionar.

4- A Pele Que Habito: Pedro Almodóvar conta um drama do médico cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas oscilando entre o bem e o mal com personalidade) assombrado pela morte da esposa, que se matou após sofrer um acidente e ter o corpo queimado e deformado e, da filha tinha problemas de convívio social depois de ser estuprada por um rapaz numa festa. Então, ele se enclausura na casa que servia de clinica para cuidar de Vera (Elena Anaya, belíssima), uma jovem com um sério problema de sensibilidade da pele. Com a temática médica, envolvendo a ética nos experimentos de novos tratamentos e a sexualidade tratada de forma mais implícita que em outros filmes do diretor, Almodóvar entrega uma obra intrigante e perturbadora. As reviravoltas e o clima de tensão crescente deixam o filme ainda mais interessante.

5- Planeta dos Macacos - A Origem: O reboot do clássico de 1968, serve para elucidar uma questão importante na série: como os macacos dominaram o mundo? A resposta veio num espetáculo de efeitos especiais, principalmente, dos macacos digitais baseados na captura de movimento e num roteiro inteligente e atual, ao questionar o experimento de novos medicamentos em animais. Will Rodman (James Franco servindo de escada para os macacos) trabalha numa nova droga para a cura do Alzheimer, doença que acomete seu pai, porém o projeto é cancelado. Um bebê macaco sobrevive e Will resolve cuidar dele e o leva para casa. Ceasar (Andy Serkis mostrando porque é o melhor ator digital da história) cresce e atinge uma maturidade intelectual anormal para espécie e após problemas com a vizinhança é levado para um criadouro de símios. Ceasar percebe como eles podem ser melhores que os humanos que os criam como animais selvagens e irracionais, e conta com a ajuda da droga que lhe fez evoluir. A partir daí temos a origem da revolução dos macacos liderados por Ceasar, que culmina com uma batalha épica na ponte Golden Gate, em São Francisco.

6- As Aventuras de Tintim - O Segredo do Licorne: Sob a batuta de Steven Spielberg e produção de Peter Jackson, as aventuras do jovem jornalista belga Tintim (Jamie Bell) e seu cachorro Milu baseado nas histórias em quadrinhos de Hergé, ganhou vida em animação realizada com captura de movimentos. Tintim compra uma réplica do navio Licorne que esconde um segredo secular e um mapa para um tesouro perdido. Com a ajuda do capitão Haddock (Andy Serkis, ele outra vez), herdeiro do segredo do tesouro, eles atravessam o mundo, enfrentam perigos e o vilão Rackham (Daniel Craig, o 007). Como obra cinematográfica é um deslumbre para os olhos, com sequências de uma beleza sem igual e entretenimento de primeira, mas parece faltar um pouco da aura mágica das HQs na qual tem origem, que é melhor representada nos excepcionais créditos iniciais.

7- Contágio: Um vírus ganha escala mundial ao se espalhar rapidamente, sem nenhuma previsão de controle ou cura. Steven Soderbergh conta com crueza e detalhismo como o contágio de um vírus pode mudar a vida das pessoas e deixar a humanidade em pânico generalizado. Além de explicitar como os órgãos sanitários e de saúde agem sob pressão, com uma nova ameaça tão mortal e devastadora, a fim de encontrar a cura e acalmar a população de todo planeta. No elenco estelar Kate Winslet, Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Laurence Fishburne, Jude Law e Marion Cotillard. Com uma direção arrojada, um roteiro seguro e uma trilha sonora hipnotizante, o filme segura o espectador na poltrona do início ao fim com um certo pavor, principalmente, ao relembrar as paranoias de epidemias como as gripes aviária e suína.

8- Rango: Gore Verbinski ficou famoso ao dirigir a louca trilogia Piratas do Caribe, mas é aqui em Rango, que ele mostra competência, maturidade e dá a Johnny Depp seu melhor papel desde o capitão Jack Sparrow, no primeiro filme dos piratas da Disney. Rango é um camaleão de estimação que após um acidente se perde no meio do deserto de Mojave e vai parar na cidade de Poeira, onde a falta d'água deixa a população em polvorosa na busca por um herói que traga água e acabe com os bandidos que assolam o lugar. Uma animação com tom de faroeste que diverte pirralhos e adultos e esbanja personalidade e criatividade, envolto numa camada de psicodelismo e delírios ao som de mariachis.

9- Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2: Tudo termina aqui. A saga do menino bruxo que há 10 anos vinha arrastando multidões aos cinemas teve um fim digno e bem realizado. Após a primeira parte do capítulo final ter sido repleta de momentos de contemplação e mostrou a dor dos personagens diante de dias tão sombrios, aqui os bruxos caem na ação e a guerra entre o bem e o mal é pra valer. Porém, é no último diálogo entre Harry (Daniel Radcliffe, menos canastrão) e Snape (Alan Rickman, perfeito) que temos a melhor cena do filme e encontramos as respostas para a salvação do mundo e a ruína de Voldemort. Efeitos especiais honestos, cenários grandiosos, fotografia exuberante e uma trilha mais sombria dão os toques finais para um dos melhores blockbusters de 2011, que se tornou a terceira maior bilheteria mundial da história.

10- Os Muppets: Eles estão de volta! Os bonecos que animaram gerações voltam fazendo piada de si próprios ao contar a história dos irmãos Gary (Jason Segel, fã e produtor) e Walter (um muppet que é fã dos muppets) que descobrem um plano do malvado Tex Richman (Chris Cooper, hilário) em destruir o teatro dos Muppets e abrir um poço de petróleo. Os irmãos vão atrás dos Muppets que estão espalhados pelo mundo para arrecadar 10 milhões de dólares para reaverem o local, enquanto Gary enfrenta problemas no romance com Mary (Amy Adams, encantadora). Eles resolvem fazer um "teleton" dos Muppets com Kermit, Pig e a turma toda, porém nenhuma emissora quer transmitir porque eles estão esquecidos pelo público e as crianças de hoje não sabem quem eles são. Com musicais relembrando os números de décadas atrás, com alegria e uma doce inocência, o filme é uma ode ao passado, quando programas infantis não precisavam apelar para violência, sensualidade ou efeitos tecnológicos. Além de contar com inúmeras e surpreendentes participações especiais.



domingo, 20 de novembro de 2011

A Segunda Vez

Agora, um jogo rápido sobre três continuações que deram as caras esse ano na telona no meio do ano. Um tira-teima sobre a segunda vez de filmes de sucesso nos cinemas.

Se Beber, Não Case 2: A gangue de amigos atrapalhados estão de volta. O cenário é a Tailândia e a história é uma cópia deslavada do primeiro filme. Tão absurdo e chato, que os momentos mais hilários ocorrem somente com as fotos da desventura nos créditos finais. Ainda assim, é uma das maiores bilheterias do ano e na história das comédias adultas só perde para o primeiro filme da série. Uma fortuna embolsada pela Warner para fazer mais uma viagem exótica numa despedida de solteiro da trupe encabeçada pelo insuportável Alan (Zach Galifianakis mais horrível do que nunca). A amnésia pós-bebedeira e muito besteirol é a medida do filme que perde fôlego e cai na mesmice, sem criatividade e muita escatologia.

Carros 2: A Pixar mantinha um nível em seus filmes que demonstrava toda criatividade e competência do estúdio, mas como ninguém é perfeito, teve sua primeira falha na velocidade de um relâmpago! A continuação de Carros (o original era divertido, mas já não era grande coisa) tem uma trama de espionagem ao redor do mundo, saindo do circuito fechado das corridas americanas tipo Nascar e ganhando o mundo num torneio intercontinental. A relação da dupla Relâmpago McQueen e Mate é explorada ao extremo e a elevação do guincho a personagem principal acaba enfraquecendo a história. Salva-se pelas referências à Fórmula 1 e ao espião James Bond, mas não empolga com as corridas.

Kung Fu Panda 2: Depois de afundar a série Shrek com os episódios 3 e 4, a Dreamworks resolveu apostar em outra continuação de um de seus melhores filmes: Kung Fu Panda. O original recheado de ação e aventura para contar a história do atrapalhado panda Po, que sonhava em ser lutador de kung fu e se torna o Dragão Guerreiro, agora dá espaço para uma trama envolvendo família, origens e uma profecia. O lendário pavão Shen, um filho de nobres que foi banido por querer a guerra, volta a agir com canhões e um exército de lobos para dominar a China e acabar com o kung fu. Assim, Po e os Cinco Furiosos (Tigresa, Macaco, Louva-Deus, Garça e Víbora) terão trabalho para derrotar o inimigo e por isso contarão com a ajuda dos mestres Crocodilo, Boi Toró e Rino Trovão. Enfim, Kung Fu Panda 2 amplia e melhora a história do primeiro com mais ação e emoção, alternando momentos de luta com sentimentalismo, como na história do pai ganso de Po. Além disso, o visual está caprichado, a trilha dita o ritmo com perfeição e as piadas são hilárias. Um filme pra toda família e com muita qualidade.



terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sob a Lona

Ventilador. No interior de Minas Gerais, a trupe do Circo Esperança viaja, cidade por cidade, para levar seu espetáculo. Em meio a poeira, calor e privações, esses artistas enfrentam cada obstáculo com o intuito de levar o sorriso e alegria ao rosto de cada morador destes lugares distantes. Valdemar/Palhaço Puro Sangue (Paulo José, vencendo o Parkinson e entregando uma atuação arrebatadora) e Benjamin/Palhaço Pangaré (Selton Mello, mostrando desenvoltura à frente e atrás das câmeras) são pai e filho, respectivamente, e donos do circo. Com a idade avançando, Valdemar passa a Benjamin o trabalho de levar o circo em frente.

Dona Zaira, a velha palhaça não tem mais sutiã para os peitos caídos. Lola, a dançarina rebola com a espada, namora Puro Sangue e embolsa a grana da bilheteria. Os cantores sempre inventam uma desculpa para conseguir um extra. O mágico vive na corda-bamba para cuidar da mulher e da filha, a pequena Guilhermina, que cresce pelo mundo convivendo com os tipos mais excêntricos sem paradeiro e com muito malabarismo para contornar as mais difíceis situações. A cada parada, novos personagens, novas histórias, novos desentendimentos.

Nesse ambiente insólito do picadeiro, Benjamin tenta encontrar um significado para viver. As cobranças dos artistas do Circo Esperança aumentam. Ele tenta fazer um crediário, conseguir um emprego, sair do circo e encontrar uma nova vida, um amor, uma identidade e um ventilador. Afinal, um rapaz já crescido que vivia perambulando pelo mundo, atravessando as serras mineiras, não tinha identidade, CPF, nenhum documento além de uma surrada certidão de nascimento.

Com uma fotografia em tons quentes e envelhecidos para nos situar numa época antiga, onde ventilador era artigo de luxo e o vermelhão da poeira contrasta com o verde das plantações e matas que são cortadas pelas estradas de chão, vamos enveredando por uma história de dor, riso, melancolia e superação. Cada quadro é como se o diretor e ator principal da obra queira fazer uma pintura, um retrato dos sentimentos de cada personagem, que reflete um período e ainda assim são emoções genuínas e atemporais. Há uma inocência marcada pelo tom onírico que a obra se desenvolve. Um ideal de que não importa o que aconteça, somos aquilo que nascemos para ser.

A câmera sempre vai dos opostos: da proximidade intimista com o personagem na tela, um detalhe, um olhar; ou parte do chão até o céu entrecortado pelos morros, num plano amplo, que faz perder a vista no horizonte. Esse cuidado visual acompanhado de atuações honestas embaladas por uma trilha prazerosa e emocional, acaba por entregar o melhor filme nacional de 2011 com sobras e um dos melhores da década com tranquilidade. Selton Mello demonstra maturidade autoral para dirigir uma obra singela que faz rir e chorar nos momentos certos e ao final, as luzes do picadeiro se apagam sob os aplausos entusiasmados do público em pé.